Nos anos 1970, o Brasil criou os carros movidos a álcool, pioneiros no mundo e ainda hoje em circulação. Na mesma época, “tropicalizou” a soja, antes cultivada apenas em regiões de clima frio, e a transformou em um importante item da pauta de exportações. Na década de 2000, passou a extrair petróleo da camada pré-sal, […]
Nos anos 1970, o Brasil criou os carros movidos a álcool, pioneiros no mundo e ainda hoje em circulação. Na mesma época, “tropicalizou” a soja, antes cultivada apenas em regiões de clima frio, e a transformou em um importante item da pauta de exportações. Na década de 2000, passou a extrair petróleo da camada pré-sal, localizada em águas ultraprofundas do litoral. No início deste mês, começou a aplicar na população uma vacina inédita contra a dengue, desenvolvida e produzida integralmente no país.
Essas são algumas das maiores conquistas da ciência brasileira, com impactos diretos na economia nacional e na vida das pessoas. Embora muito diferentes entre si, elas têm pelo menos um ponto em comum: todas tiveram, em alguma fase das pesquisas, o apoio financeiro do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), que neste mês completa 75 anos de existência.
O CNPq é o principal órgão público de fomento da ciência no Brasil. Trata-se de uma agência vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação que financia pesquisas em todas as áreas do conhecimento e, por meio de bolsas, forma e mantém cientistas vinculados a universidades e institutos de pesquisa em todo o país. No ano passado, o CNPq injetou R$ 3,14 bilhões na ciência nacional.
O presidente do CNPq, Olival Freire Junior, explica como o conhecimento científico é essencial para o desenvolvimento nacional.
— Desde o fim do século 19, todos os países que conseguiram avançar no desenvolvimento contaram com o papel decisivo do Estado como indutor da ciência. Isso vale para Inglaterra, Estados Unidos, Alemanha, Japão, Coreia do Sul, China. Para dinamizar a indústria e a economia e melhorar a qualidade de vida da população, as nações se apoiam fortemente nas tecnologias desenvolvidas pela ciência.
Ele lembra que, se não fosse o financiamento público da ciência, o Brasil não teria formado engenheiros e outros profissionais especializados para trabalhar em empresas de ponta, como a Petrobras, criada em 1953, e a Embraer, fundada em 1969.
— É um erro depender da ciência importada. Na pandemia de Covid-19, aprendemos que, mesmo dispondo de dinheiro suficiente, corremos o grave risco de não ter quem nos forneça os produtos tecnológicos que necessitamos. Isso aconteceu com respiradores. Temos minerais estratégicos em abundância, mas ainda não contamos com toda a tecnologia necessária para transformá-los em equipamentos eletrônicos, de energia limpa e de defesa. Os países que detêm esse conhecimento estão muitos passos à frente. A autonomia científica e tecnológica é crucial para a soberania e até a sobrevivência de uma nação — completa o presidente do CNPq
O senador Astronauta Marcos Pontes (PL-SP) sabe bem da importância do CNPq. Primeiro, porque já foi ministro da Ciência e Tecnologia. Depois, porque o apoio da agência foi decisivo em sua formação como engenheiro aeronáutico e, por consequência, na realização do feito de ser o primeiro — e até hoje único — astronauta brasileiro a viajar para o espaço.
— O CNPq ajudou a formar gerações de pesquisadores e a sustentar projetos que impulsionaram o desenvolvimento do Brasil. Sem o CNPq, teríamos hoje maior fuga de cérebros, mais dependência internacional em setores estratégicos e maior dificuldade de responder a pandemias, desastres ambientais e desafios energéticos — aponta ele (leia entrevista com o senador no fim desta reportagem).
O apoio do CNPq não se restringe às ciências exatas (física, matemática), da saúde (medicina, odontologia) e tecnológicas (engenharias, computação), mas contempla também as ciências humanas (história, filosofia) e sociais (sociologia, economia). Ao mesmo tempo, são fomentadas tanto as pesquisas básicas, que alimentam a ciência com novos saberes, quanto as aplicadas, que transformam esses saberes em inovações e soluções práticas.
O filósofo Renato Janine Ribeiro, ex-ministro da Educação e ex-presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), observa que, embora o imaginário público privilegie as ciências exatas, da saúde e tecnológicas quando se fala em pesquisa, as ciências humanas e sociais são igualmente fundamentais.
— A redução da fome e das desigualdades, por meio do Bolsa Família, por exemplo, deve muito às ciências humanas e sociais. Elas identificaram que os velhos programas de distribuição de cestas básicas e frentes de trabalho [contratação temporária de pessoas atingidas pela seca para trabalhar em para obras públicas, normalmente de baixo ou nenhum impacto] não funcionavam como se esperava e concluíram que é mais eficaz a transferência direta de recursos com uma série de regras, como o direcionamento do dinheiro às mães e a exigência de que as crianças estejam vacinadas e matriculadas na escola.
Janine Ribeiro conclui:
— Isso significa que agências de fomento como o CNPq têm papel relevante na produção de evidências que orientam a formulação de políticas públicas bem-sucedidas.
Um dos principais desafios do CNPq é de ordem financeira. O volume de recursos gerido pela agência é considerado baixo diante da demanda da ciência brasileira. Enquanto os países investem, em média, 1,8% do produto interno bruto (PIB) em ciência e tecnologia, segundo a Unesco (braço da ONU para educação, ciência e cultura), o Brasil aplica apenas 1,3%, somando recursos públicos e privados. Como comparação, a Coreia do Sul e Israel reservam mais de 4,5%.
De acordo com o físico Glaucius Oliva, professor sênior da USP e presidente do CNPq entre 2011 e 2015, existem duas explicações principais para a escassez e a instabilidade das verbas.
— A primeira é que o orçamento público está sempre pressionado por demandas emergenciais, como saúde, segurança e infraestrutura. Nesse cenário, a ciência perde espaço e não é priorizada porque suas demandas não são vistas como urgentes. A segunda razão é que os ciclos políticos são curtos, geralmente de quatro anos, e os gestores preferem priorizar ações que tragam retorno imediato. A ciência, ao contrário, exige investimento contínuo para que os frutos apareçam anos ou até décadas depois. É a mesma lógica da educação, que também exige visão de longo prazo.
Além dos fatores estruturais, Oliva aponta um problema cultural. Ele lembra que, segundo pesquisas de opinião, os brasileiros em geral não sabem nomear instituições ligadas à ciência, embora digam confiar nos pesquisadores e no conhecimento científico.
— Esse desconhecimento é ruim para as instituições, como o CNPq. Quando elege seus representantes, a sociedade não prioriza os candidatos que prometem defender a ciência. Além disso, não se mobiliza nem protesta quando os recursos são cortados ou as próprias instituições são ameaçadas. As pessoas não podem defender aquilo que não conhecem — avalia.
Fonte: Agência Senado
Nota da redação do Sindpd-RJ:
Agora que você já sabe qual é a importância da ciência na sua vida, que tal defender mais políticas públicas de fomento para nossos pesquisadores?